Especial Educação Infantil (IV): Educação popular e formação de educadores
23 de Outubro de 2009
Categoria: Brasil
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Como lidar com as diferentes formações no mesmo grupo, criando uma relação que propicie a troca de experiência entre os educadores, entre diferentes movimentos e que cada sujeito pudesse se reconhecer, sentir-se parte do processo e conseguir relacionar a teoria à sua prática cotidiana? Por Candeeiro (Coletivo de Educação Popular)
Este artigo pretende expor alguns desafios apontados para a educação popular hoje, a partir da experiência do I Curso de Formação de Educadores Populares Infantis, realizado pelo Coletivo Candeeiro na Faculdade de Educação da USP durante o ano de 2008. Junto com textos de Rubens Paolucci (CEPIS), Mauro Iasi (NEP 13 de Maio), Márcia Ramos (MST) e os Maestros de Michoacán (México), compõe o Caderno de Formação número 01 do CEPAEP - Centro de Estudo, Pesquisa e Ação em Educação Popular da Universidade de São Paulo, que será lançada em novembro próximo.
A iniciativa de ampliar um campo de reflexão teórica mais aprofundada sobre as concepções, o papel e o sentido histórico da educação popular, assim como contribuir com a produção teórica, a formação de educadores populares, a articulação de organizações de diversos segmentos e experiências, de forma a propiciar a construção de uma pauta comum de lutas na Educação Popular, orientam as ações do Candeeiro - Coletivo de Educação Popular.
* * *
Traçar as estratégias que julgamos ser as mais adequadas para o alcance de uma transformação estrutural da sociedade é tema sobre o qual diversos setores vêm se debruçando ao longo da história. A educação neste contexto, imbuída de seu caráter político, é um dos alicerces que compõem o cenário das disputas sociais. Não por acaso, este é um dos instrumentos historicamente utilizados pelas classes dominantes para a manutenção das relações de dominação e exploração, configurando-se, portanto, como instrumento de construção de hegemonia.
No entanto, seu caráter dialético permite pensá-la também como um poderoso instrumento de contrahegemonia, que enquanto tal não pode se contentar a reproduzir as formas atuais de educar. Da mesma maneira que a revolução socialista reivindica novas formas de organização do trabalho, ela também deve reivindicar novas formas de organização da educação. Sabemos que nesta sociedade o máximo que conseguiremos será a realização de uma educação mais humana, que possibilite a formação de sujeitos mais livres. Contudo, não se trata de esperar pelo dia após a revolução para começarmos a experimentar essas novas formas, mas de experimentá-las desde já, como prefiguração de uma sociedade distinta da capitalista.
Conceitos e formas de organização são forjados na história através dos processos sociais, nas lutas e nas tensões entre as forças políticas. A educação popular passou por reconfigurações ao longo do tempo, sofrendo a repressão e ataques às experiências concretas, além da cooptação e esvaziamento de significado do termo com a construção de um discurso que assume contornos conservadores, travestido de um caráter democrático, no qual a educação assume um caráter neutro, sustentado pela prerrogativa de ser “para todos”, fazendo com que o próprio significado do popular perca o caráter de classe e consequentemente a relação com o poder do povo.
Por isso é fundamental que a educação popular, como estratégia política, seja clara em sua proposição, assumindo determinadas características:
1. o conteúdo e suas bases teóricas devem conter a perspectiva da transformação social e do interesse de classe, e
2. a forma de abordar conteúdos revolucionários deve atentar às formas como esses conhecimentos são construídos, como eles significam ou não às pessoas, retomando a construção dialética do conhecimento.
Por fim, para ser verdadeiramente transformadora, não basta ser realizada com as classes populares, mas deve, sobretudo, estar a serviço dos interesses das classes populares e da formação de uma consciência de classe.
Tal formação acontece junto à luta de classe, portanto não há como separar em diferentes momentos estas duas esferas; são processos que dependem um do outro e alimentam-se mutuamente. A formação política dificilmente ocorre isolada da experiência, assim, a teoria pouco contribui quando deslocada da realidade concreta dos sujeitos. Do mesmo modo, não há como estabelecer a primazia da teoria, mas há como dizermos que a teorização sobre os fatos ocorre mais facilmente quando os dois processos, o da vivência das contradições e a racionalização da realidade concreta, se dão ao mesmo tempo. Não há como nos distanciarmos do sujeito e de como vive e percebe a realidade. A consciência do todo é essencial para a organização, a transformação e para a atribuição de significados, pelas pessoas, do que as leva a se encontrarem em determinadas situações sociais, objetivas e materiais.
A escolha de nossos interlocutores, quais sejam, os educadores e educadoras militantes de movimentos populares, se dá, portanto, na perspectiva de que a construção do poder popular ocorre a partir da formação de uma consciência de classe, da luta política, da organização e da construção de novas formas e de novos tipos de conhecimento e práticas sociais que têm, na atualidade, os movimentos populares como espaço privilegiado.
A aposta na formação de educadores
Quando analisamos a história da infância no Brasil, percebemos que a educação infantil pouco foi considerada prioridade dentro do espectro da educação, raramente sendo reconhecida como algo importante para a formação do sujeito e consequentemente desqualificada a função de educador de crianças. As crianças e jovens provenientes das classes populares carregam as marcas do trabalho infantil, da desigualdade e do abandono, gerando uma série de estigmas, que dão o tom das políticas sociais elaboradas para esses sujeitos. Tais políticas foram historicamente marcadas pela caridade, o assistencialismo e a punição, e praticamente resumiam a educação infantil à função de “guardar” as crianças pobres, enquanto seus pais trabalhavam.
Sabemos que a manutenção deste modelo de educação e sua reprodução advêm de uma questão estrutural de organização e funcionamento da sociedade. No entanto, a luta política no capitalismo contemporâneo não pode se limitar apenas a uma luta de pura força física ou de poder econômico, ela deve ser feita no conjunto da sociedade, que é o espaço do consenso, pois como dizia Gramsci, para obter o poder, deve-se fazer uma revolução no cotidiano [1]. Neste sentido, o resgate da educação popular como um projeto de classe, isto é, a educação como estratégica na transformação radical da sociedade, através da luta contra-hegemônica e do fortalecimento do poder popular, precisa ser feita também na infância.
A educação infantil, em geral, não é considerada como campo de trabalho da educação popular, que se ocupa em formar nos adultos, justamente aquilo que se constitui nas experiências da infância: relações sociais calcadas em determinados valores. Como afirma Sartre, em sua Crítica da Razão Dialética: “os marxistas de hoje só se preocupam com os adultos: ao lê-los, podia-se crer que nascemos na idade em que ganhamos nosso primeiro salário; esquecem-se de sua própria infância”. [2]
Contudo, vale dizer que a análise dos limites desta educação possibilitou a avaliação das potencialidades de nossa atuação, contribuindo para a formulação de uma práxis que tentasse corresponder àquilo que julgamos necessário para a constituição da identidade destas crianças que nada mais seria do que possibilitar que compreendessem, minimamente, que a realidade não é estática, nem natural, mas histórica. Num mundo onde a dominação é inevitável, a única possibilidade de educação popular infantil advém da tentativa de constituição de uma identidade de classe e da proposição de uma nova cultura, baseada em outros valores, que resgate elementos da classe trabalhadora para classe trabalhadora.
É a partir desta análise e desta proposição educativa que se orienta nossa discussão sobre formação de educadores; partindo da relação intrínseca entre educação e sociedade é que se propõe uma formação política, organizativa e pedagógica popular de educadores infantis.
Para tanto, é necessário que o educador popular assuma este compromisso de classe, na medida em que compreende a educação de forma contraditória: de um lado, reproduzindo a ideologia dominante e de outro, proporcionando a negação da ideologia, pela confrontação entre ela e o real.
Para educadores que trabalham diretamente com as crianças nos movimentos populares, e que cotidianamente vivenciam as contradições da prática, saber das potencialidades e limites de seu trabalho é fundamental, já que são estes sujeitos que assumirão uma parte da tarefa de manutenção ou transformação da educação.
I Curso de Formação de Educadores Populares Infantis
O I Curso de Formação de Educadores Populares Infantis foi aprovado na Faculdade de Educação da USP, em caráter de difusão cultural e representou também um embate no contexto de disputa pela função social da universidade, como tentativa de efetivar a função da universidade pública na construção de conhecimento de relevância social e, portanto, de atender prioritariamente aos interesses das classes populares.
A proposta teve como objetivo contribuir na formação de educadores com o intuito de proporcionar:
1. subsídios à práxis em educação popular, dando suporte na criação de condições concretas para a construção de uma proposta educacional popular que fortalecesse a experiência de espaços educacionais e Cirandas Infantis [3];
2. construir e disseminar uma proposta de educação comprometida com os interesses populares, possibilitando o engajamento de novas pessoas na construção do Poder Popular e;
3. acumular, sistematizar e produzir novas teorias e práticas sobre o tema, a partir da experiência formativa.
O segundo passo deste processo se realizou em conjunto com as organizações participantes: o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e o Movimento Terra Livre, movimentos que representam um importante espaço de organização das classes populares. Foi na construção com estes movimentos, de acordo com a demanda e a dinâmica de cada organização, que se chegou a um consenso quanto a estrutura geral do curso. Além da participação de educadores das três organizações, o curso teve vagas abertas à comunidade em geral, as quais foram preenchidas por educadores com alguma atuação em experiências comunitárias.
A estrutura do curso
Realizado no período de maio de 2008 a março de 2009, em encontros de periodicidade quinzenal, o curso foi dividido em quatro eixos, dois dos quais se realizaram na primeira etapa e os dois outros na segunda etapa. A escolha dos temas buscou mesclar debates de cunho mais abstrato com elementos e conteúdos claramente relacionados ao cotidiano, aliando o aspecto político ao pedagógico, de maneira que pudéssemos ir construindo junto com os educadores uma definição para o próprio conceito de educação popular e os significados políticos da educação na sua relação com a sociedade e a perspectiva revolucionária.
No Eixo I – Educação e luta de classes, buscamos estabelecer a relação entre a educação e a sociedade de classes e a importância da disputa pela educação popular como construção do poder popular, apoiando-se nos seguintes pontos: 1. Análise crítica da sociedade capitalista e diagnóstico da realidade brasileira; 2. Resgate da história da educação no Brasil e a educação como instrumento de reprodução da sociedade de classes; 3. Organização da sociedade: o papel do Estado, das políticas públicas e da sociedade civil na construção da educação popular; 4. História da luta pela educação popular, sua função social e finalidade.
O Eixo II – A construção da identidade das classes populares tinha por objetivo estabelecer o paralelo entre a constituição do sujeito e a construção de identidade das classes populares na relação com a construção de uma proposta de educação popular, apoiando–se nos seguintes pontos: 1. A constituição do sujeito e sua relação com a sociedade, a ideologia e a cultura; 2. Mecanismos de exclusão, culpabilização e humilhação das classes populares na educação; 3. Construção de identidade e a proposta de educação popular.
Eixo III – Trabalho cotidiano em educação popular. Procuramos, com base em elementos concretos que fazem parte da educação, debater a as particularidades de uma proposta de educação popular abordando os desafios e perspectivas a partir dos seguintes pontos: 1. Experiências e finalidades da educação popular; 2. A questão do método e da organização do trabalho na educação popular; 3. Relação entre educação e sociedade: famílias, comunidade e organizações políticas.
O último eixo temático, Eixo IV – Conhecimento e empoderamento do sujeito, nos permitiu debater a relação entre conhecimento e poder e as diferentes linguagens da educação infantil popular, com base nos seguintes pontos: 1. Relação entre o conhecimento e as estruturas de poder; 2. Educação: entre a adaptação e a resistência; 3. A construção do conhecimento e as teorias de aprendizagem; 4. As diferentes linguagens e a construção de uma proposta de educação popular infantil.
Os três últimos meses foram dedicados à elaboração do trabalho final, no qual cada pessoa ou grupo escolheria um tema com intuito de refletir e aprofundar questões da educação popular. Este foi um momento fundamental do curso, já que ele consistiu num espaço de sistematização e reflexão sobre os processos de formação.
Bases metodológicas da educação popular
Buscamos nos apoiar numa concepção metodológica dialética, na qual a construção do conhecimento deve partir da prática, numa relação permanente com a teoria. Ou seja, procuramos partir do que as pessoas sabem, vivem e sentem, das diversas situações e problemas que enfrentam no cotidiano, para pensar em temas a serem desenvolvidos na formação. Posteriormente pretende-se desenvolver um processo de teorização sobre essa prática, não como um salto ao teórico, mas como um caminho sistemático, ordenado, progressivo, que permita ir, pouco a pouco, descobrindo os elementos teóricos e aprofundando-os. O processo de teorização assim desenvolvido permite relacionar o cotidiano, o imediato, o individual e parcial com o social, o coletivo, o histórico e o estrutural. Com este processo espera-se regressar à prática para transformá-la, melhorá-la e, quiçá, resolvê-la; regressar a ela com novos elementos teóricos que permitam que o conhecimento inicial, a situação, o sentir do qual partimos agora possam ser explicados, compreendidos e convertidos em guias para uma prática transformadora.
Um dos maiores desafios da educação popular é a concretização desta base metodológica, e foi este também um dos focos da coordenação do curso no desenvolvimento dos encontros. Como lidar com as diferentes formações no mesmo grupo, criando uma relação que propicie a troca de experiência entre os educadores, entre diferentes movimentos e que cada sujeito pudesse se reconhecer, sentir-se parte do processo e conseguir relacionar a teoria à sua prática cotidiana?
A primeira estratégia adotada foi a divisão do grupo de educadores em três núcleos, composto por pessoas de diferentes movimentos que trabalharam juntas ao longo da primeira etapa do curso, realizando as tarefas que teríamos cotidianamente, que alternavam o trabalho manual com o intelectual, indo da limpeza da sala e a organização do café à preparação da mística e do registro dos encontros. Nos pequenos grupos de discussão, instrumento utilizado em diversos momentos, cada pessoa pôde se colocar, contar e re-elaborar suas experiências e uma das funções atribuídas ao coordenador do dia do núcleo seria a de prestar especial atenção às falas das pessoas de maneira que todos pudessem se colocar. O rodízio das funções de coordenação e relatoria também contribuiu para a construção do pertencimento e apropriação do curso pelos educadores, além de desenvolver diferentes habilidades.
Na tentativa de realizar a relação dialética entre teoria e prática buscamos num primeiro momento, a partir de um conteúdo teórico e ainda abstrato para a maioria das pessoas, mesclar sempre sessões mais expositivas com dinâmicas que trouxessem exemplos concretos sobre as questões, bem como outros recursos como filmes, dramatizações e debates. Logo as atividades práticas passaram a ocupar o mesmo espaço em nossa programação, já que a vivência de algumas experiências atreladas aos esquemas conceituais trabalhados se mostravam fundamentais para a elaboração daquilo que se falava. Nesse sentido, a igual valorização das experiências concretas de educação e do acúmulo teórico foi fundamental para superar o abismo que existia entre estas duas esferas.
Na segunda etapa, parte dos encontros do curso foi realizada nos acampamentos, assentamentos e comunidades de origem dos educadores, o que se mostrou essencial para concretizar a relação entre o que estudávamos na universidade e o cotidiano de cada um. Estes encontros constituíram boa parte do vínculo e da identidade de cada educador que recebeu o grupo em seus espaços, em suas casas, dividindo de maneira intensa a história, antes somente contada, nestes momentos mostrada e vivida. Esta experiência contribuiu, sobretudo, para o reconhecimento de cada sujeito no outro, momentos em que o individual se torna coletivo; problemas antes de um só se tornaram questões para todos, possibilitando um reconhecimento de classe e também a busca por soluções coletivas.
A realização dos trabalhos finais também se colocou como um desafio metodológico, pois deveriam ser propostos de maneira que se constituíssem como forma de expressão em que a práxis fosse privilegiada, buscando fugir dos padrões restritivos de produção do conhecimento, e que pudesse ser realizada por educadores com formações distintas. Assim, a forma de elaboração foi variada: incluindo a produção de texto sob forma de artigo, de um pequeno jornal ou revista literária com poesias, contos, pequenas peças (formato escrito), fotografia ou ilustrações, relato de experiências, produção de vídeo, música ou outro tipo de material multimídia; e pôde ser desenvolvido em grupos de até três pessoas, permitindo uma maior interlocução. Além disso, cada trabalho teve uma formadora responsável por seu acompanhamento.
O processo de construção e de formulação dos trabalhos foi vivido intensamente pelos educadores, que assumiram a tarefa de pesquisar e sintetizar as discussões sobre temas discutidos, além de relatar sua trajetória de vida e experiência enquanto educadores. A apresentação dos trabalhos resultou na sistematização e no reconhecimento por parte dos próprios educadores de sua condição de militantes e de re-significação de suas práticas.
A experiência do curso nos colocou algumas reflexões, como a urgência do aprimoramento de propostas de metodologias em educação popular e de sistematização de práticas como estas. Outra questão que se mostrou relevante é a estrutura e o tempo das atividades. A proposta de encontros quinzenais foi baseada na intenção de um acompanhamento ao longo de todo o processo de formação dos educadores, em que o conhecimento pudesse ir pouco a pouco sendo assimilado, intercalado com as práticas cotidianas de cada um nos espaços de educação de origem.
No entanto, o fato de ir e vir a cada duas semanas acabou por causar certo desgaste, tanto para os educadores, que vinham por vezes de lugares muito distantes, quanto para a coordenação imbuída de todas as tarefas estruturais, tais como alimentação, alojamento, salas de aula, transporte etc., e pedagógicas, como o estudo para a preparação das aulas, pesquisa de materiais e formulação de metodologias de trabalho.
Por fim, salientamos a importância de que a concepção de uma proposta de formação seja elaborada, desde o princípio, em conjunto com todas as organizações envolvidas, uma vez que todos os aspectos, desde a estrutura, o tempo, a metodologia e os conteúdos estão intimamente relacionados aos sujeitos participantes. Podemos apontar como saltos importantes realizados neste processo:
1. o reconhecimento por parte dos educadores de sua condição de militante e a re-significação de suas práticas;
2. o reconhecimento da educação popular infantil como estratégia para a construção do socialismo e;
3. a construção, pelos educadores populares, de um espaço na universidade, consolidado na criação do Fórum de Educadores Populares do Centro de Estudo, Pesquisa e Ação em Educação Popular da Faculdade de Educação.
Com este primeiro exercício de avaliação esperamos contribuir para a reflexão sobre o caráter político da formação de educadores populares. Sabemos que a educação por si só não transforma, mas é preciso que aprofundemos o debate sobre como potencializá-la como um instrumento capaz de contribuir para a organização da classe trabalhadora de um processo revolucionário. Nesse sentido, construir a educação popular vinculada à vivência nos processos de luta, utilizando-se de instrumentos teóricos e a partir da experiência da realidade concreta e das contradições objetivas, é uma de nossas tarefas para caminharmos em direção a construção de uma nova sociedade, justa e igualitária, enfim, socialista.
Endereço eletrônico: coletivocandeeiro@yahoo.com.br
Notas:
[1] GRAMSCI, Antonio. (1968). Os Intelectuais e a Organização da Cultura. Rio de janeiro, Civilização Brasileira.
[2] IASI,Mauro Luis. (2007). Ensaios sobre a Consciência e Emancipação. São Paulo, Expressão Popular.
[3] Ciranda Infantil é o nome dado aos espaços de educação infantil nos Movimentos Populares, cunhado inicialmente pelo MST.
terça-feira, 10 de novembro de 2009
terça-feira, 3 de novembro de 2009
RÁDIO COMUNITÁRIA DO PILAR
O que é o Projeto “Comunicação e Memória: a comunidade do Pilar reescrevendo a sua História”?
Nossa comunidade está localizada no bairro mais antigo da cidade, o Bairro do Recife. Durante toda a sua existência, a Comunidade do Pilar enfrentou precárias condições de saneamento básico, iluminação pública, além das dificuldades de acesso à saúde (o Posto se localiza fora da comunidade) e à Educação (a única Escola Municipal não atende toda a procura da população).
Apesar das dificuldades, a Comunidade do Pilar tem uma história de resistência e lutas. É esta a História que nós, que fazemos a Rádio Comunitária do Pilar, sonhamos resgatar e queremos contar.
Não faz muito tempo, a Prefeitura da Cidade do Recife assinou, em parceria com o BNDES, um convênio que dá inícios às obras de revitalização da Comunidade. Nesse momento, localizamos a oportunidade de resgatar a nossa história, contá-la e, assim, conscientizar nossos jovens e também os adultos da Comunidade sobre a trajetória de lutas que construímos no coração do bairro histórico conhecido como “Recife Antigo”.
Além de conhecer e contar a nossa história, queremos registrar, compreender e acompanhar este processo de transição no jeito de viver de nossa comunidade que a revitalização vem trazendo, é por isso que consideramos importante nos COMUNICAR! Comunicando, queremos conhecer e formar, conhecendo e formando, queremos transformar nossas realidades. Assim, o projeto “Comunicação e Memória: a comunidade do Pilar reescrevendo a sua história” quer trabalhar a comunicação, a informação e a memória histórica como caminhos para a organização comunitária e a educação da juventude.
O que queremos com o Projeto?
Em primeiro lugar, queremos fortalecer a Comunicação (através da Rádio) como meio de formação e integração cultural da juventude da Comunidade do Pilar. E daí?
Daí que não queremos somente nos comunicar e comunicar cultura. Queremos agir comunicativamente! Significa que a própria comunicação já é uma ação! Isso nos fará promover e fortalecer a organização comunitária através do resgate e registro das memórias dos moradores da Comunidade do Pilar (nas nossas entrevistas, fanzines, programas de rádio, vídeos).
Uma das coisas centrais para compreender a nossa História e o momento que estamos vivendo (de transição com a revitalização) é justamente a nossa capacidade de produzir material de registro histórico sobre a Comunidade, a partir de nossa pesquisa e trabalho, contando nossa história em diversas linguagens: vídeo-documentário, fanzine, programas de rádio, internet.
Vamos também nessa nova fase da Rádio, criar, dentro da grade de programação, um programa sobre história e organização comunitária, e divulgar e acompanhar o andamento das obras de revitalização através de um trabalho comunicativo de múltiplas linguagens (internet, fanzine, rádio, vídeo-documentário).
Aliás, Já temos Comunidade de Orkut, Blog, Perfil Público e lista de e-mail’s...
Conecte-se!!! E seja Bem-vind@ ao Movimento!!!
Vamos fazer valer nossa voz!
Postado por
Luciana Amâncio
às
05:55
Assuntando sobre...
Comunidade do Pilar,
História,
Memória,
Participação
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
Conexão-favelaS
Polícia pacificadora?
por: Michel Fernandes*
20/08/2009
*Michel Fernandes é morador da Cidade de Deus e participa da oficina de correspondentes multimídia oferecida pelo Viva Favela.
por: Michel Fernandes*
20/08/2009
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| A favela Cidade de Deus foi uma das primeiras a ganhar a Polícia Pacificadora |
Ainda lembro quando Michelle Silva, moradora da localidade Quadra 13, na Cidade de Deus, morreu ano passado. Ela era esposa de um amigo meu, que é mototaxista e trabalha dignamente. Michelle foi covardemente alvejada e morta por um disparo de arma de fogo, não me recordo o calibre e o tipo de arma (fuzil ou pistola), mas até hoje lembro que foi uma atitude covarde de alguém despreparado e insensato.
Esse episódio me deixou chocado e muito triste pela circunstância na qual ela foi embora: mãe de duas filhas e cidadã trabalhadora, que ao chegar em casa do trabalho foi para o pequeno espaço onde se localiza o tanque de lavar roupas. Lembrar disso me deixa bastante pra baixo e a partir desse fato passei a tomar certas precauções.
Moro, por enquanto, com a minha mãe no local chamado Pantanal 2 ou Casinhas, com casas duplex anexas umas as outras que formam um conjunto de vilas, com amplas ruas internas, onde as crianças brincam quase que o dia todo e também acontecem churrascos e festas de aniversário. Este ano, por duas vezes, me deparei com situações que "NÃO" se assemelhavam a isso, mas que me lembrou muito o caso da nossa querida Michelle.
Um deles foi dia 6 de junho, dois dias depois do aniversário de 9 anos do meu filho. Era uma quinta-feira, dia que o caminhão passa para fazer a coleta do lixo. Minha mãe de 75 anos acordou cedo, tipo 6h da manhã (o caminhão passa sempre às 7h30), fez o café e ficou vendo TV até o horário de ir ao local levar o lixo. Eu estava dormindo no quarto de cima e não percebi o que aconteceu.
Naquele dia acontecia uma operação policial na vila onde moro. Às 7h20 da manhã, minha mãe abriu o portão e se deparou com um policial (tropa comum) apontando um fuzil 7,62MM em direção a ela. Com toda a certeza isso foi uma demonstração do despreparo, insensatez, estupidez e sei lá mais o que. Minha mãe, como diz na gíria, soltou o verbo para esse sujeito, disse que ele não deveria apontar uma arma para uma senhora com a idade dela e com um saco de lixo na mão, que além do mais, ela estava saindo do domicílio dela e ele não tinha que agir dessa maneira. Deu um sermão e uma lição de como um idoso deveria ser respeitado. O policial não esboçou nenhuma palavra (menos mal).
Inconformado com aquela situação de ter que ouvir tudo aquilo e ter que ficar quieto, ele exigiu, sem mandato policial, uma revista no interior da casa para mostrar a sua força ou, talvez, dizer quem é que “manda” e quem dá a última palavra. A casa foi revistada e nada foi encontrado. O infeliz foi embora com sua equipe. Agradeço muito a Deus por não ter acontecido nada com ela.
O segundo fato ocorreu dia 5 de agosto. Eu estava na sala, por volta das 22h30, fazendo back up dos arquivos do meu PC para fazer um reparo na instalação do LINUX. Comprei cinco DVDS virgens e fiz o back up, mas tive um problema. Tenho tantos arquivos que os CDs não deram para salvar tudo. Medi o tamanho do que ainda tinha no PC e observei que poderia salvar uma parte no meu pen drive e o restante deixaria no PC da Mônica, minha amiga e dona de uma lan house aqui na Cidade de Deus.
Quando sai de casa, por volta das 23h15 (a lan house fecha meia-noite), abri o portão e me deparei com um policial do Batalhão de Choque (farda camuflada) apontando um fuzil calibre 7,62 para a minha cabeça. Eu conheço muito bem esse tipo de armamento, porque fui soldado armeiro do Batalhão de Infantaria do Exército Brasileiro e sei, tecnicamente, o potencial de destruição de uma arma desse porte.
Ele mostrou uma falta total de preparo. Mais um caso parecido com o que aconteceu com a minha mãe, a única diferença foi a mudança na cor da farda e o tipo de tropa. Olhei bem nos olhos dele e levantei os braços (maneira de provar que estava desarmado). Vi toda a minha vida passar em segundos, como se fosse um filme de flash back. Já tinha ouvido falar dessa sensação quando se está em risco de vida. Não tive medo, mas pensei: será que vou morrer na porta da minha casa inocentemente?
Em seguida, o sujeito abaixou o fuzil e veio me revistar de maneira brusca e sem pedir autorização, algo muito rotineiro nas favelas e que contraria a conduta militar. Cito isso, porque já fui abordado na Zona Sul e o procedimento foi diferente. Depois da revista, o policial foi embora calado. Fiquei muito indignado com aquilo e bati o portão com força.
Como tinha dito que havia tomado uma precaução, a regra é agora sair de casa e tomar muito cuidado ao abrir o portão, pois eu e minha mãe não sabemos se vamos encontrar um policial apontando um fuzil para a gente. Se não bastasse o cuidado que tenho que ter nas ruas, pois vivo num estado que está mergulhado numa guerra civil e a violência está todos os dias estampada nos jornais, tenho que ter ainda mais cuidado quando saio de casa.
*Michel Fernandes é morador da Cidade de Deus e participa da oficina de correspondentes multimídia oferecida pelo Viva Favela.
Escola denuncia violência na comunidade do Pilar e Secretaria de Educação reprime direção
Escola denuncia violência na comunidade do Pilar e Secretaria de Educação reprime direção
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quinta-feira, 20 de agosto de 2009
Que Imprensa é esta?



do Blog Acerto de Contas
por André Raboni
por André Raboni
Hoje é um dia lamentável para a imprensa pernambucana. Os três jornais da cidade estampam em suas capas uma manchete de tremendo mal gosto – aliás, de uma estupidez ímpar.
Há tempos que eu não via manchetes tão espúrias na imprensa local.
Colocando em escalas, digo que, dos três jornais locais, a pior manchete de hoje é a da Folha de Pernambuco (famosa justamente por estampar manchetes ridículas, e matérias sanguinolentas). Em segundo lugar vem o Diário de pernambuco que, além de escrever uma manchete tosca, ainda estampou a foto da vítima (uma menina de 12 anos). Por último, o Jornal do Commercio, que, embora tenha seguido o mesmo mote, tentou disfarçar seu sensacionalismo, e acabou por ser o mais ameno.
As três manchetes mostram um teor reprovável de apelo pelas vendagens. A FolhaPE recebeu meu 1º lugar, por causa de sua ironia estúpida.
Folha de Pernambuco: “Deu babyliss no cabelo e morreu“
Diário de Pernambuco: “Eletrocutada pela chapinha“
Jornal do Commercio: “Garota morre ao fazer chapinha“
Todo mundo sabe que, nesta cidade, serve como uma ironia a tal da expressão “chapinha” – que é um método de alisar cabelos. Tornou-se ainda mais irônica a expressão depois da música de João do Morro, Balaiagem.
Para que os editores desses jornais não me venham aqui no blog com justificativas e tergiversações, citarei o psicanalista francês Jacques Lacan para mostrar onde consiste a ironia das manchetes – maquiada de grande “preocupação” com o caso.
Quem quiser a referência da passagem citada abaixo, favor ler os seminários de Lacan. Um dia o perseverante encontra.
“Toda palavra tem sempre um mais-além, sustenta muitas funções, envolve muitos sentidos. Atrás do que diz um discurso há o que ele quer dizer e, atrás do que quer dizer, há ainda um outro querer dizer, e nada será nunca esgotado.”
O “outro querer dizer” das manchetes não é outro senão: “compre-me!”
Os editores dos jornais foram irônicos com a vida de uma garota de apenas 12 anos de idade. Tal ironia se trata de uma grande estupidez!
Os leitores do Acerto de Contas hão de perdoar-me a nervura deste post. Mas eu estou revoltado com tudo isto, e não saberia fazê-lo com frieza e risos de rostidade oblíqua.
Mas façamos uma ponderação. Muita gente gosta mesmo é deste tipo de jornalismo (diplomado) baixo e antiético – essa é a deontologia ensinada nos cursos de jornalismo?
É por essas e outras que este não é um país sério, fadado à lama podre das vielas desordenadas da cidade. Merecemos mesmo é o caos, e a nojeira do nosso Senado é apenas reflexo de nossa sociedade estúpida e hipócrita.
Observem com os próprios olhos as imagens das manchetes de hoje dos três jornais pernambucanos.
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
Denúncia
Postado por
Luciana Amâncio
às
06:23
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